João Sebastian

se a arte pode ser ofício, então o Sebastian sempre foi artista (mas não o admite, hélas!). Gráfico de inclinação e profissão, e para sempre tipógrafo, a criação sai-lhe de forma tão óbvia como da pereira sai a pera. Sem esforço e sem espanto. Conhece de cor as prensas e os prelos, os rolos e as entrelinhas e acarinha-os, pois são o seu veículo expressivo. Ultrapassa a barreira da técnica com novas invenções das quais não prescinde. Tintar e prensar o caracter metálico comove-o, mas não o limita. Encontrar no chão ou no armário um novo material para lhe servir de matriz é aquilo que o move. E desta labuta do tipógrafo de todas as coisas sai o seu trabalho: filigranas, meandros, padrões, texturas, sensações visuais e colóricas criadas a partir de materiais que outros descartam como lixo. E, deveras espantoso, tudo lhe sai bem, ou não sai. O João também escreve assim, sem aprumo sintáctico, mas com a firmeza e o perfeccionismo de quem se sente obrigado a caligrafar o que pensa, para não condenar a ideia ao limbo. O João é artista no sentido clássico, mas também no sentido vernáculo: sabe fazer e sabe pensar, logo sabe criar. Munido da vontade e do mester, tudo lhe sai como gesto decidido, por vezes moroso, mas sempre brilhante. E a invenção não é nele capricho, mas necessidade. E é também o gosto pelo saber fazer que o empurra para aí, para além da sua natureza irrequieta. Bruno Munari afirmou que é necessário demolir o mito do artista-deus que produz obras-primas apenas para os mais inteligentes, e fazê-lo descer do pedestal. Ora para conhecer artistas do gabarito do João, não é necessário levantar os olhos, basta olhar em redor. O artista autêntico não separa a vida da arte, e no João a arte é a extensão natural da vida.

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